Jaspers,
a partir dessa reflexão, pergunta: quem é esse homem, que se reconhece ligado à
nação, à raça, ao sexo, à própria geração, ao meio cultural, à situação
econômica e social e que, não obstante, de tudo se pode afastar, colocando-se,
por assim dizer, fora e acima de todas essas estruturas em que historicamente
se encontra imerso?
Para o referido filósofo, o homem, exilado em seu existente, quer ultrapassar-se. Não se
satisfaz com ser, numa quietude fechada em si mesma, o perpétuo retorno do
existente. Não mais se reconheceria autenticamente como homem, se contentasse
com ser o homem que hoje é. Para ele, só na ação sobre si mesmo e sobre o
mundo, em suas realizações é que ele adquire consciência de ser ele próprio, é
que ele domina a vida e se ultrapassa. Isso ocorre de duas maneiras: por
ilimitado progresso no mundo e pelo infinito que se faz presente a ele em sua
relação com o transcendente.
Quem se
interroga a respeito do homem, sustenta Jaspers, gostaria de ver dele
esboçar-se imagem verdadeira e válida, mas isso não é possível. A dignidade do
homem reside no fato de ele ser indefinível. O homem é como é, porque reconhece
essa dignidade em si mesmo e nos outros homens. Kant o disse de maneira
maravilhosamente simples: nenhum homem pode ser, para outro, apenas meio; cada
homem é um fim em si mesmo.
Mas, do
ponto de vista político, o que somos nós realmente, mesmo no interior de nossas
fronteiras? Essa é a pergunta que Jaspers nos propõe. Na medida em que a massa
participa da prosperidade econômica, desinteressa-se da política, de maneira
inquietante. Deixamo-nos governar por uma oligarquia de partidos que se nomeia
a si mesma e que não se digna a interessar-se pela população, a não ser às
vésperas de eleições. Colocar o voto na urna é o único ato político praticado
pelo povo e praticado sem maior reflexão. No fundo, isso equivale a decidir,
por aclamação, que a mesma oligarquia de partidos continue no poder. Nenhum dos
partidos tem um ideário político. Nenhum deles trabalha em favor da liberdade política
interna ou em favor da liberdade de pensamento. Nenhum deles procura ajudar o
povo a educar-se politicamente.
Na visão
do autor, se todos soubessem o que a liberdade política realmente é, o poder
atual da oligarquia dos partidos se veria enfrentado pelo poder do espírito e
da iniciativa popular, especialmente a dos jovens.
Quando se
tem boa fé, não se pode admitir uma opinião diferente, a não ser para acompanhar,
a título de concessão, os argumentos do adversário. O bom interlocutor ajuda
intelectualmente aquele com quem se defronta. Essa atitude encontra obstáculos no
apego aos interesses materiais, no desejo de ter razão e na escravização a
fórmulas vazias de sentido. Nessas condições, não mais se ouve e não mais se
responde.
Ele
conclui indagando para que servem os debates políticos: são úteis para nossa autoeducação
política e nos preparam para a ação. Correspondem ao fórum da vida política da
nação. Se outras coisas fossem, não passariam de palavreado vazio, só de interesse
para o psicólogo e para os técnicos em manipulação política. E qual é,
neste caso, o papel da reflexão filosófica? Serve para esclarecer o debate,
esclarecendo-lhe os princípios e objetivos, mantendo presentes ao espírito os
fatos essenciais e sua hierarquia, sondando o destino da humanidade e, em
resumo, incluindo a política na indagação: para que vivemos nós?
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